Lao Tsé em Sonetos

1. A ESSÊNCIA DO COSMO

 

 

 O Insondável Tao, que se pode sondar,

 não é o verdadeiro pendor Insondável,

 um Incalculável que se pode calcular,

 não traduz o plenamente Incalculável;

 

 no Inominável está a origem do cosmo,

 o que é nominável, é a mãe dos seres,

 o ser evidencia a Fonte do que somos,

 o existir nos leva a muitos afazeres;

 

 ser e existir são a tração do porvir,

 a real diferença entre ser e existir

 está apenas nos nomes que conhecemos;

 

 misterioso é o fundo desta realidade

 e misteriosa é a força desta Unidade,

 eis em que consiste um saber supremo.

2.A AMBIVALÊNCIA DA UNIDADE

 

 

 Só conhecemos a influência da beleza

 quando notamos a feiúra inversamente,

 só conhecemos a bondade, com certeza,

 quando vemos a maldade paralelamente;

 

 portanto ser e existir são similares,

 fácil e difícil têm sua relatividade,

 grande e diminuto são complementares

 e alto e baixo são uma mesma unidade;

 

 som e silêncio têm mesmo complemento,

 passado e futuro são etapas do tempo

 e o sábio realiza tudo e nada espera;

 

 ele não ambiciona nada por princípio,

 acaba a obra e está sempre no início

 e por isso mesmo a sua obra prospera.

4.A ORIGEM TRANSCENDENTAL

 

 

 O Tao é a Fonte do profundo silêncio

 que o uso não torna gasto nem imundo,

 é como a vacuidade de aspecto imenso,

 é origem de todas as forças do mundo;

 

 ele desafia as mentes dos pensadores,

 desfaz os enganos pela reciprocidade,

 ele funde, em uma só, todas as cores

 e une todas as variadas diversidades;

 

 ele é origem do silêncio e do porvir,

 por sua sabedoria, age pelo não agir,

 e cada ser se acerta depois que erra;

 

 não sabe sua origem nenhum dos seres,

 porém é o gerador de todos os deuses,

 bem como de todos os homens da Terra.
 

5.O VAZIO ENERGÉTICO

 

 

 O Universo não tem suas preferências

 as coisas são iguais na razão de ser,

 assim, o sábio não obtém referências

 como os variados homens costumam ter;

 

 o cosmo é como fole de forja natural

 que, embora vazio, doa a sua energia,

 tanto mais alimentamos a chama vital

 quanto mais acionamos a sua sintonia;

 

 quanto mais falamos no real Universo

 menos o entendemos, em senso inverso,

 portanto, é preferível uma meditação;

 

 o melhor é auscultá-lo pelo silêncio

 porque de tão profundo e tão extenso

 só pode ser sentido com a imaginação.

6.O SEIO INTANGÍVEL E IMORTAL

 

 

 Imperecível o Espírito da profundeza

 como um Seio profundo de maternidade,

 que gera homens e formas na natureza

 perpetuando sim a vida na eternidade;

 

 tanto os céus quanto o planeta Terra

 radicam no seio desta Mãe Espiritual,

 cuja abrangência de saber nunca erra

 preservando a vida de modo magistral;

  

 tanto os céus quanto a Terra vigente

 traduzem a origem dos seres viventes,

 mas este Espírito é a origem inicial;

 

 os seres vivos têm ação desenvolvida

 então espontaneamente brotam da vida

 pela interseção deste Espírito Vital.

 

7. A LEI CÓSMICA DA REALIZAÇÃO

 

 

 Eternos são o céu e a Terra em união

 porque não são mesmo auto-existentes,

 porque se radicam na alma da Criação

 que, além deles mesmos, é Onipotente;

 

 esta é a razão da eternidade vigente

 e assim é o sábio que não age a esmo,

 quando não é nocivamente ego-vivente,

 quando não se interessa por si mesmo;

 

 um sábio se realiza de forma natural

 pois não cuida de seu ego individual

 e por isto o seu eu até gera divisas;

 

 seu desinteresse o liberta da tensão

 e esta é a lei cósmica da realização:

 só um desinteressado se auto-realiza.

8.O DOM DA SERENIDADE

 

 

 A vida é assim como a água excedente

 que se adapta no nível mais inferior,

 que os homens desprezam naturalmente,

 não se opõe a nada e serve com valor;

 

 vida não exige nada como complemento

 pois a sua origem é da Fonte Imortal,

 o pensador não tem desejos de dentro

 e nem tem exigências do corpo carnal;

 

 o homem sábio é prestativo em se dar

 e semelhantemente é sincero ao falar,

 suave no conduzir e sempre admirável;

 

 é poderoso porque age com vitalidade

 porém, ele também age com serenidade

 e por isso um sábio é incontaminável.

9. A LEI DA AÇÃO E DO LIMITE

 

 

 Só se pode encher o vaso até a borda,

 então uma gota a mais será excedente,

 não se deve nem afiar uma faca torta

 e logo testar o corte apressadamente;

 

 não se deve possuir pedras preciosas

 sem ter lugar seguro para as guardar,

 quem é rico possui regalias valiosas

 mas, não sabe quando deve se limitar;

 

 o rico não reconhece a sua limitação

 e por se considerar dono da situação,

 atrai sua própria desgraça e sua dor;

 

 quem faz grandes coisas humildemente

 e delas não se envaidece nocivamente

 realiza em si mesmo seu céu interior.

11. A FORÇA DO INVISÍVEL

 

 

 Trinta raios convergentes num centro

 possui uma roda de um moinho em ação,

 mas, só os vazios entre os elementos

 é que facultam sua real movimentação;

 

 o oleiro faz vasos com argila na mão,

 mas, é o oco deles que tem utilidade,

 paredes são massas com portas e vãos

 e o vazio entre elas tem praticidade;

 

 assim também são as coisas materiais

 que sempre parecem ser as principais,

 mas, mostram sua labilidade no final;

 

 o valor principal está no metafísico,

 como vida invisível agindo no físico,

 proveniente da Viva Fonte Espiritual.
 

12. A LEI DA MODERAÇÃO

 

 

 O excesso de luz cega o dom da visão,

 um excesso de som ensurdece o ouvido,

 muito condimento desatina a gustação,

 o ímpeto da paixão afeta os sentidos;

 

 a ambição do impossível lesa a ética,

 assim, o sábio determina em sua alma

 a medida para a prática e a estética

 e desenvolve as suas ações com calma;

 

 o sábio tem a medida para cada coisa,

 ele calcula a distribuição de forças

 e sua obra tem feição característica;

 

 para o sábio cada fato que é visível

 é só seta apontando para o invisível

 pois a lógica das ações é metafísica.

14.A ESSÊNCIA DA DIVINDADE

 

 

 Quem quer ver a Divindade não a verá,

 porque a Divindade única é invisível,

 e quem quer ouvir o Tao não o ouvirá,

 porque a Divindade única é inaudível;

 

 só na visão do todo está a Divindade,

 a superfície parece ter só escuridão,

 a profundeza parece ter luminosidade

 e não está ao alcance da compreensão;

 

 o Tao permeia o Universo sem paradas,

 gira pelo todo como se fosse um nada,

 a Divindade é como a forma sem forma;

 

 só quem percebe o infinito tem noção

 de que cada visível tem sua aparição

 vinda dum Invisível que o transforma.

 

15.O DOM DA PROFUNDIDADE

 

 

 Os velhos mestres eram identificados

 com forças do Cosmo na interioridade,

 a grandeza e o poder estavam ligados

 na dinâmica de sua curiosa atividade;

 

 tal como barqueiros que cruzam o rio,

 como pessoas circundadas de inimigos,

 que, no inverno, se protegem do frio,

 como o gelo que se derrete no abrigo;

 

 autênticos tal como cerne de madeira,

 amplos como vales abertos na ribeira

 e impenetráveis como as águas do mar;

 

 Insondável também é a viva sabedoria

 e só sintoniza a sua Divina harmonia

 quem seguir mesmo se tudo lhe faltar.

16.O DOM DA TOLERÂNCIA

 

 

 Quem se ergue às alturas sem desejos

 enche de completo silêncio o coração,

 ainda que as turbas com vis gracejos

 assaltem o homem isento de corrupção;

 

 ele habita num silêncio bem profundo

 contemplando com incrível serenidade

 o duro vai e vem que existe no mundo,

 que forma as peripécias da realidade;

 

 quem não compreende é autor de males

 e quem é amplo como a alma dos vales

 alarga a emoção e se torna tolerante;

 

 ele segue a ordem cósmica da Criação,

 identifica-se com o Tao da Perfeição

 e não se subjaz em curso irrelevante.

19. O DOM DA ÉTICA GENUÍNA

 

 

 De mil benefícios goza uma população

 quando se troca fala por praticidade,

 quando a lógica e o amor em evolução

 nascem como por encanto na sociedade;

 

 a ordem não reina no social restrito

 onde só o interesse determina o agir,

 esses equilíbrios não são prescritos,

 todavia devem ser vividos no existir;

 

 somente quando também são praticados

 é que auxiliam os homens equivocados

 a experimentarem um meio de correção;

 

 a ética genuína tem melhor horizonte

 se o homem viver dentro de sua fonte

 agindo só pela pureza de seu coração.

20. A DIFERENÇA DO HOMEM ESPIRITUAL

 

 

 Renunciai à vossa sabedoria pretensa

 e todos os problemas se solucionarão,

 oh! quão diminuta parece a diferença

 entre a alma do sim e a força do não;

 

 é pequeno o critério entre bem e mal,

 como é tolo não respeitar as pessoas,

 porque todos merecem respeito afinal,

 oh! dura solidão que me oprime à toa;

 

 todo mundo vive em vultosos prazeres

 como se fosse festa sem fim de seres

 e somente eu me encontro bem isolado;

 

 apenas eu sou diferente da população,

 e no entanto, sossega oh meu coração,

 tu vives no seio da Mãe do Ilimitado.
 

22. O DOM DA VERSATILIDADE

 

 

 O que é imperfeito será bem perfeito,

 o que é curvo será reto em elegância,

 o que é vazio será cheio, com efeito,

 e onde há carência haverá abundância;

 

 onde há plenitude haverá a vacuidade,

 se algo se destrói, algo tem geração,

 e assim é um sábio com versatilidade

 encerrando em si a bênção da Criação;

 

 ele não pensa em si por simplicidade,

 porém ele é superior às adversidades

 e por não ter desejos é invulnerável;

 

 há bastante verdade no antigo ditado:

 quem se amolda é forte e equilibrado,

 esta é a meta maior da vida sociável.

23. O DOM DA SINTONIA

 

 

 Quem pouco fala tem uma correta ação

 em todos os episódios que participar,

 e não se apavora quando ruge o tufão

 porque sabe que não tardará a passar;

 

 sabe que chuva não vem o dia inteiro,

 que Céu e Terra sofrem transformação,

 se tudo é tão instável ou passageiro

 como não seria um ser humano em ação?

 

 o que interessa é a atitude interior

 de adaptar-se num silêncio comovedor

 e de obter um dom voltado para o bem;

 

 quem sintoniza a Virtude do Infinito

 se harmoniza com o seu Poder Bendito

 e recebe Virtudes do Infinito também.

24. A VIRTUDE DA MODERAÇÃO

 

 

 Quem se levanta na ponta de seus pés

 não pode se agüentar por muito tempo,

 e quem abre as pernas por demais até

 não pode andar direito ou a contento;

 

 quem se ofusca na luz não pode luzir,

 quem doa valor a si não é valorizado,

 quem se exalta não poderá se redimir,

 quem se venera a si não será louvado;

 

 tais atos são rejeitados logicamente,

 rejeita-os também, oh homem sapiente,

 por seus elos com os dons da Criação;

 

 quem conhece o teor de sua dignidade

 na sintonia do Infinito da Divindade

 se abstém de tais atos por moderação.
 

25.a. A ORIGEM DA VIDA E DOS SERES

 

 

 Nas dimensões da Insondável Amplidão

 existia o Incognoscível e Divino Ser,

 antes que tudo conhecesse a formação

 antes que a matéria pudesse aparecer;

 

 Imóvel e até sem formas cognoscíveis,

 o vácuo, o nada e sem noção de tempo,

 era como berço de todos os possíveis,

 para além das palavras e pensamentos;

 

 era o Tao, origem sem nome nem forma,

 esta grandeza que a todos transforma

 a Fonte Viva eternamente borbulhante;

 

 Fonte do que é e do que está por vir

 formando o ciclo do Ser e do Existir,

 tornando a vida curiosa e importante.

26.a. O DOM DA TRANQÜILIDADE

 

 

 Quem de boa índole carrega o difícil

 leva um menos difícil com facilidade,

 quem conserva uma quietude plausível

 é Senhor da inquietude com dignidade;

 

 por isto o sábio leva de boa vontade,

 o dom de sua jornada terrestre ativa,

 e nunca se deixa iludir na realidade

 por novas deslumbrantes perspectivas;

 

 trilha com dignidade e tranqüilidade

 o seu caminho solitário por lealdade

 à evolução que deve fomentar no meio;

 

 já um leviano de comportamento banal

 que se derrama pela vida superficial

 degenera os seus dons e os do alheio.

27. A UNIÃO DO SABER COM A CARIDADE

 

 

 Quem caminha direito não deixa rasto,

 quem conversa bem não faz conjectura,

 quem calcula bem não usa sinal gasto

 e quem fecha bem dispensa fechaduras;

 

 assim é o sábio com os seus sentidos

 pois sabe sempre ajudar a humanidade,

 porque para ele ninguém está perdido

 e sabe aperfeiçoar tudo na realidade;

 

 o sábio ajuda um ser menos realizado,

 colaborando com o Saber do Ilimitado,

 para a fartura de Seu Divino Vinhedo;

 

 quem não age assim é algo inclemente

 e ignora a cultura genuína existente,

 isto encerra em si um grande segredo.
 

28. O PODER ÍGNEO DO HOMEM

 

 

 Do homem forte, com a sua virilidade,

 com a delicada feminilidade em união,

 brotam as boas origens da humanidade,

 pois aqui estão as fontes da Criação;

 

 um iluminado prefere ficar no escuro

 para que sua flama possa ser genuína,

 pois sua luz ilumina também o futuro

 e não o deserdarão as forças divinas;

 

 o sábio teve simplicidade no coração

 e espalhou sua luz para cada cidadão

 e as pessoas viram o Tao e sua Ordem;

 

 pelo sábio, homens são disciplinados,

 graças a eles o mundo será iluminado,

 o poder ígneo vem de dentro do homem.

29. O DOM DE PLASMAR O MUNDO

 

 

 Diz a antiga experiência que o mundo

 não pode ser plasmado pela violência,

 que ele possui o Espiritual profundo

 que só se plasma com sua consciência;

 

 decretar ordem utilizando só a força

 é criar só desordem em contraposição,

 querer ensinar fazendo a mesma coisa

 é destruir a capacidade de adaptação;

 

 uns devem seguir, outros devem parar,

 uns devem clamar, outros devem calar,

 uns são fortes, outros são escorados;

 

 ao sábio não interessa a força usada

 e não pretende ser dominador de nada,

 pois a violência é um caminho errado.

31. A REJEIÇÃO ÀS ARMAS

 

 

 Armas são instrumentos para querelas

 que o bendito homem correto despreza,

 quem já tem o Tao não se serve delas,

 ao nobre, só a benevolência se preza;

 

 todas as armas só trazem calamidades

 e o homem correto rejeita a sua ação,

 a paz e o sossego são as prioridades

 que nutrem as emoções de seu coração;

 

 a real sabedoria traz a paz e o amor,

 a estultícia traz ódio, guerra e dor,

 a ilusão do direito traz a violência;

 

 e deve-se viver conforme a realidade,

 ilusão e direito geram agressividade,

 verdade e justiça geram benevolência.
 

33. OS VALORES ÍNTIMOS

 

 

 Inteligente é quem conhece os outros

 e sapiente é quem conhece a si mesmo,

 forte é quem vence um duro confronto

 e poderoso é quem não se guia a esmo;

 

 ativo é quem trabalha mesmo bastante

 com uma vontade deveras desenvolvida,

 rico é quem se faz mais interessante

 e que sabe viver contente com a vida;

 

 firme é quem vive em auto-disciplina

 que controla o íntimo como determina

 a essência de um bom senso plausível;

 

 eterno é quem supera a ação da morte

 que ainda transforma a própria sorte

 para depois viver no mundo invisível;

37. O TAO COMO FONTE DE HARMONIA

 

 

 O Tao não age em direto envolvimento

 e por este não-agir tudo tem atuação,

 se chefes tivessem este entendimento

 todas as coisas teriam real evolução;

 

 se as pessoas tivessem desejos puros

 o Tao os satisfaria com simplicidade,

 assim, elas se uniriam ao bem seguro

 que provem naturalmente da Divindade;

 

 e assim quem se liga ao Uno profundo

 não tem desejos levianos deste mundo

 e onde não há desejos há uma boa paz;

 

 onde há a paz e a bendita serenidade

 tudo é harmonia com muita felicidade

 e o homem também se torna mais capaz.

39. A FORÇA DA UNIDADE

 

 

 Toda pluralidade se firma na unidade,

 esses dois são um voltado para o bem,

 o Céu é bom pois só há uma Divindade,

 a Terra é firme pois é uma só também;

 

 as faculdades espirituais são ativas

 pois são dons que traduzem a unidade,

 e toda hegemonia tem sua perspectiva

 pois é uma unidade em potencialidade;

 

 os sábios sabem que toda a sabedoria

 se firma na simplicidade em harmonia,

 e até o que é alto, no que é pequeno;

 

 soberanos que têm correta apreciação

 se consideram só servos da população,

 pois o seu poder se apóia no terreno.
 

40. A ORIGEM DE TUDO A PARTIR DO NADA

 

 

 Tudo que existe provém do Ser Divino

 e regressa ao mesmo Ser inversamente,

 e o Ser é o Tao Insondável e Genuíno

 que escapa à noção de qualquer mente;

 

 das profundezas deste Ser Insondável

 nascem todos os seres aqui presentes,

 é uma origem de valor inquestionável

 que nos abriga do nascente ao poente;

 

 este Ser sempre foi o dono do porvir

 e ainda do seu abismo do Não-Existir,

 como Senhor de Tudo a partir do Nada;

 

 portanto, ao longo das variadas eras

 mesmo se considerarmos novas esferas

 a vida terá a mesma origem sublimada.

41. O ILUMINADO PERANTE O MUNDO

 

 

 O sábio, se tem o Tao ou a Divindade,

 busca realizá-lo em sua própria meta,

 quem ainda vacila com vil leviandade

 só às vezes trilha a estrada correta;

 

 quem fala em sabedoria porém é surdo

 não levará a sério a sua compreensão,

 e se o Tao não lhe parecesse absurdo

 não seria o Tao de infinita amplidão;

 

 quem é iluminado de um modo profundo

 parece até escuro aos olhos do mundo,

 sem bom caráter e pouco interessante;

 

 quem progride no mundo interiormente

 parece ser até imprestável e demente,

 quem é paciente parece ser ignorante.

43. A FORÇA DO REBAIXADO

 

 

 O amolecido vence o muito endurecido

 e o vácuo também penetra a plenitude,

 e se até o endurecido será amolecido

 o tempo modificará todas as atitudes;

 

 nisto se revela uma poderosa atuação

 que é bem característica do Não-agir,

 e poucos homens na terra tem a noção

 que esta boa expressão leva a sentir;

 

 existe segredo na lição sem palavras

 enquanto a condição errada se agrava

 para a posterior correção a contento;

 

 este é o poder do agir pelo Não-agir

 que leva o ser humano a bem refletir

 almejando evolução ao longo do tempo.
 

44. SER E TER NA EVOLUÇÃO

 

 

 O que vale mais: meu nome ou meu ser?

 O que é mais meu: posses ou essência?

 O que é mais importante para crescer:

 lucros ou perdas em minha existência?

 

 Quem prende seu coração só à matéria

 está preso sem chances de libertação,

 quem quer ter tesouros, terá miséria,

 pois é pobre possesso com alucinação;

 

 quem vive satisfeito, buscando o bem,

 só é feliz com os satisfeitos também,

 e quem respeita o limite não é vilão;

 

 isto origina a verdadeira serenidade,

 de dentro vem a humana tranqüilidade

 e por fora se demonstra com evolução.

45. OS EQUÍVOCOS DO MUNDO

 

 

 Quem quer perfeição em suas atitudes

 parece imperfeito para sua sociedade,

 embora também a sua oculta plenitude

 preencha todas as opostas vacuidades;

 

 quem possui uma plenitude verdadeira

 é inesgotável por mais que se esgote,

 e quem anda direito da mesma maneira

 parece sempre torto para quem o note;

 

 grande habilidade parece inabilidade,

 arte genuína parece até mediocridade,

 mas a ação aquece o frio lá no fundo;

 

 a quietação vence as forças do calor,

 o que é puro e reto, com o seu valor,

 sempre orientará as pessoas do mundo.

46. O DESPRENDIMENTO E A PAZ

 

 

 Quando a humanidade vive em harmonia

 cavalos puxam o arado e ninguém erra,

 quando ela renega a lei da sabedoria,

 os cavalos se preparam para a guerra;

 

 não há mesmo pecado maior nesta vida

 do que um excesso de nociva ganância,

 e não existe maldade mais envilecida

 do que querer até além da abundância;

 

 não existe maior desgraça ou excesso

 do que a imprudente mania de sucesso

 e a ambição que conduz aos desatinos;

 

 quem se contenta só com o necessário

 não vê no dia a dia o seu adversário,

 um desprendimento pacifica o destino.
 

47. A COMPREENSÃO INTERIOR

 

 

 Para conhecer a Terra com veracidade

 não é necessário caminhar pelo mundo,

 e sem olhar a janela com curiosidade

 posso conhecer os segredos profundos;

 

 quanto mais longe alguém for divagar

 menor será o seu saber paralelamente,

 o sábio, sua sabedoria, vai alcançar

 sem erudição e sem viagem igualmente;

 

 ele atinge a sua meta de compreensão

 sem esforço e usando só a imaginação,

 porém, vai além do espaço e do tempo;

 

 ele termina a sua jornada meditativa

 sem quaisquer viagens por iniciativa,

 só pela ausculta e pelo entendimento.

48. A AÇÃO DA NÃO-AÇÃO

 

 

 Conhecedor quer conhecer sempre mais

 quem se une ao Tao por livre vontade,

 conhece cada vez menos fatos sociais

 e não deseja nada só pela sagacidade;

 

 acaba não fazendo nada para mudanças

 e graças ainda a este não-fazer-nada

 tudo é feito por meio de sua pujança,

 e a realidade pode ser reestruturada;

 

 um reino se constrói apropriadamente

 pelo não-fazer-nada de modo coerente,

 assim, a ação surge com naturalidade;

 

 seguindo a meta hipotética contrária

 seria atacado na ação revolucionária

 de fazer muito mas por contrariedade.

49. A EXPANSÃO DAS EMOÇÕES

 

 

 O sábio não tem seu coração estreito

 pois ele sente as emoções dos outros,

 sabe ser bom com uns amigos do peito

 e é bom mesmo com quem tem confronto;

 

 pois em sua pessoal e íntima atitude

 só se permite demonstrar benignidade,

 é honesto com quem tem suas virtudes,

 porém também com quem tem rapacidade;

 

 ele vive mais retirado habitualmente

 mas sua vida está aberta socialmente

 a todos os homens com nobre eqüidade;

 

 e os olhos e os ouvidos em anonimato

 ainda se voltam para ele estupefatos,

 mas ele vê seus filhos na humanidade.
 

50. A INVULNERABILIDADE DA RAZÃO

 

 

 A transmudação do Ser para o Existir

 chama-se adequadamente de nascimento

 vindo do Existir, o Ser vai se remir

 no ato da morte ou do desprendimento;

 

 três entre dez se apegam em prazeres,

 três entre dez os alcançam ao morrer,

 três entre dez se apegam em afazeres,

 e apenas o sábio sabe como bem viver;

 

 nas peregrinações de seus horizontes

 ele não teme tigres nem rinocerontes

 e passa no meio da luta sem armadura;

 

 para inimigos ele é mesmo inatacável

 porque o sábio é sempre invulnerável,

 pois não há morte em sua vida futura.

51. A AUTENTICIDADE DA DIVINDADE

 

 

 Do abismo do Tao sempre nasce a vida

 e é mantida pelo poder da vitalidade,

 vivida na materialidade desenvolvida

 e completada pelo senso de liberdade;

 

 faz as flores crescerem na primavera,

 faz o fruto ser bem nutrido no verão,

 amadurecer no outono, como se espera,

 e no inverno leva a seiva até o chão;

 

 e este é o mistério da autenticidade

 que sobrevive por Valor da Divindade

 e para que a vida possa se preservar;

 

 o Tao faz tudo sem nenhuma pretensão,

 Ele serve à vida sem nenhuma ambição,

 e promove a tudo sem desejar dominar.
 

53. O CAMINHO INTERIOR LEVA AO TAO

 

 

 Orientar-se pelo Tao é saber genuíno,

 mas, os homens querem afã dispersivo,

 o caminho interior leva até o Divino

 mas, eles preferem o percurso nocivo;

 

 reis mandam nos palácios com talento,

 enquanto os campos jazem sem cultura,

 celeiros estão vazios e sem alimento

 e o egoísmo compromete a vida futura;

 

 gabar-se de armas e de jóias polidas,

 empanturrar-se de iguarias e bebidas

 é só a revelação de superficialidade;

 

 armazenar tesouros é forma de ilusão

 e o latrocínio é qualquer exploração,

 e isto é contra o Valor da Divindade.

55. A PLENITUDE DO SER

 

 

 Quem vive só na plenitude do seu ser

 vive mesmo como criança recém-gerada,

 víboras venenosas não a irão ofender

 e ainda, por feras, não será atacada;

 

 mesmo aves de rapina não a agarrarão

 os seus ossos mostram pouca destreza

 e seus músculos mostram pouca flexão,

 mas, ela prende e segura com firmeza;

 

 ela ainda ignora também o uso sexual,

 mas, não lhe falta este sexo natural

 pois um embrião de sexo nela dormita;

 

 encontra-se num estado de iluminação

 sente-se nutrida pelo dom da Criação

 e nesta atuação ela se torna bendita.

56.a. A HARMONIA DA SABEDORIA

 

 

 Quem sabe, cala, quem fala, não sabe,

 o sábio vive calado em tom moderador,

 para que seu entendimento não desabe

 e se volta para o seu mundo interior;

 

 ele alivia o que é agudo com o tempo,

 desenrola aquilo que está emaranhado,

 suaviza também aquilo que é violento

 e nivela-se com o que está rebaixado;

 

 e assim ele conscientiza a realidade

 identifica-se com o uno da Divindade

 eqüidistante de simpatia e antipatia;

 

 É indiferente à perda ou rendimentos

 acima de louvores ou escarnecimentos

 e nisto ele tem verdadeira sabedoria.

62. QUEM PROCURA O TAO O ENCONTRA

 

 

 O Tao é a pátria de todas as pessoas

 é lar dos bons e remédio da perdição,

 belas palavras são altaneiras e boas,

 mas, só boas ações levam à perfeição;

 

 será nobreza rejeitar os transviados?

 Deste modo por que foram instituídos

 o imperador e o seu fausto enfeitado?

 Eles fazem parte do Tao desenvolvido!

 

 os antigos veneravam bem a Divindade

 quem A procura A acha com facilidade,

 e o transviado pode achar a evolução;

 

 todo doente pode conquistar sanidade

 e por isto o Tao é a suprema bondade

 que resgata a pessoa para a redenção.
 

63. OS PARADOXOS DAS AÇÕES

 

 

 Sede ativos até mesmo na inatividade,

 achai gosto no desgosto por evolução,

 vede o grande no pequeno por bondade,

 vede o muito no pouco por sublimação;

 

 enfrentai o ódio com amor no coração,

 notai o difícil antes da dificuldade,

 fazei o grande amando a pequena ação

 e vede o complicado com simplicidade;

 

 todo grande nasce sem a sua elevação,

 o sábio não se preocupa com salvação

 porém ela vem para quem não a espera;

 

 quem sempre jura não obtém confiança,

 quem é leviano não alcança segurança,

 o sábio prevê o mal e assim o supera.

64. A VERDADEIRA LIBERDADE

 

 

 O que está estável pode se conservar

 e o que é inconstante é influenciado,

 o que ainda é frágil pode se quebrar

 e o que é leve, pelo vento, é levado;

 

 deve existir ordem e não descompasso,

 a grande árvore vem de raiz diminuta,

 uma longa viagem começa com um passo

 e a torre polida está em terra bruta;

 

 um sábio não se apega em sua jornada

 e por isso ele também não perde nada,

 porque se mantem livre por sabedoria;

 

 o que aos outros é só insignificante,

 o sábio o considera muito importante

 e estabelece o valor de sua harmonia.

66. A PROFUNDIDADE COMO AMPARO

 

 

 Rios e córregos afluem para os vales

 porque procuram os lugares profundos,

 o governo profundo é isento de males

 e isto garante o equilíbrio do mundo;

 

 quando o sábio até pretende governar

 expressa suas palavras com moderação,

 e, ao seu íntimo ego, deve renunciar

 para se tornar soberano da população;

 

 assim, o povo não se sente humilhado,

 pois ninguém mais se sente governado

 e todos lhe respeitam de boa vontade;

 

 todas as pessoas se sentem amparadas,

 sentem-se livres e até recompensadas

 e não reclamam dos elos da sociedade.
 

68. A FORÇA DA HARMONIA PESSOAL

 

 

 O sábio que é devidamente competente

 convence e não faz nenhuma discussão,

 o verdadeiro soldado é mesmo valente

 porém, luta sem raiva em seu coração;

 

 o real vencedor mostra sua superação

 porém, não se irrita conscientemente,

 e o bom chefe põe cada homem em ação

 mas, não tiraniza ninguém obviamente;

 

 esta nobre atuação nascida de dentro

 predispõe à paz durante todo o tempo

 no dom de conduzir homens suavemente;

 

 esta ação é vinda do reino celestial

 e semelhante ação de maneira natural

 é considerada como elevada e decente.
 

71. O CONHECIMENTO DA IGNORÂNCIA

 

 

 Quem conhece a sua íntima ignorância

 revela a mais alta e nobre sapiência,

 mas, quem não dá a ela a importância

 vive na mais esdrúxula inconsciência;

 

 quem vê uma ilusão como interrogação

 não sucumbe em dor ao longo do tempo,

 quem conhece a ilusão só como ilusão

 comanda seu destino com entendimento;

 

 um sábio conhece bem o seu não-saber

 e que seu íntimo deve sempre evolver

 bem embasado nas virtudes sublimadas;

 

 essa íntima consciência do não-saber

 leva o sábio a sempre se desenvolver

 preservando-o de ilusões equivocadas.

73. O SÁBIO AGE SEM VIOLÊNCIA

 

 

 Coragem com inquietação gera a morte,

 coragem com serenidade mantem a vida,

 uma trás o azar a outra trás a sorte

 pois depende da cautela desenvolvida;

 

 o sábio observa a tudo com prudência

 e dificilmente toma uma dura atitude,

 ele segue a revelação da Onisciência

 e não intervém em descaso da virtude;

 

 vencer sem lutar, mandar sem ordenar,

 trazer sem apelar, alentar sem falar,

 o sábio prefere sempre agir à socapa;

 

 a teia que se trás do céu é infinita,

 e neste contraste desta ação bendita,

 as malhas são largas e não se escapa.

74. A VERDADEIRA JUSTIÇA

 

 

 Se alguma população não teme a morte

 quem pode governá-la com morte ainda?

 porém se ela teme a morte, por sorte,

 o crime de morte ficaria na berlinda;

 

 há sempre um juiz que faz decretação

 e execute a pena de morte juntamente,

 mas, qualquer um que tenha presunção,

 de ser juiz, terá um engano evidente;

 

 quando apenas o Tao é o juiz em ação

 as pessoas têm uma correta avaliação

 e tudo se equilibra bem naturalmente;

 

 quando um homem é juiz da condenação,

 parece o lenhador com machado na mão

 que corta a própria mão erroneamente.
 

76. OS CONTRASTES DA VIDA

 

 

 Tenro e flexível é o homem ao nascer

 todavia ele é duro e rígido na morte,

 as plantas também vão se desenvolver

 obedecendo seqüências da mesma sorte;

 

 duro e rígido o que sucumbe no final,

 o terno e o plasmável tem muita vida,

 quem julga ser forte só pelo arsenal

 não vencerá nas contendas envolvidas;

 

 as árvores que parecem bem possantes

 se aproximam bem do final atrofiante

 para mostrarem o contraste existente;

 

 o forte está a caminho da decadência

 e o mais fraco de pouca consistência

 deverá se desenvolver paradoxalmente.

77. PRINCÍPIOS DOS HOMENS E DO TAO

 

 

 A ação do Tao é como o arco flexível:

 arma os humildes e desarma poderosos,

 numa atividade que parece impossível

 mas, que obedece princípios valiosos;

 

 acresce no menos e diminui no demais

 assim é o ato do Tao ou da Divindade,

 em prol de bons equilíbrios naturais

 tira da plenitude e põe na vacuidade;

 

 as pessoas atuam num nocivo circuito,

 retiram do pouco e acrescem no muito,

 distanciando-se de conceitos Divinos;

 

 o rico que quer sublimar sua atitude

 oferece aos frágeis da sua plenitude

 e transforma a reação do seu destino.

78. O PODER DA ADAPTAÇÃO

 

 

 Nada há que se acomode tanto ao chão

 e nem mais frágil que a água bendita,

 nada é mais forte que a sua agitação

 que vence o duro em qualquer vindita;

 

 água é incomparável e até invencível

 assim, o fraco derrota o fortalecido,

 então por mais que pareça impossível,

 amolecido também supera o endurecido;

 

 todavia ninguém pratica esta verdade

 assim, só o sábio aceita a realidade

 que deveria nortear os seres humanos;

 

 quem, em labores agrícolas, não erra

 suporta as acres imundícies da terra

 e é o senhor da colheita daquele ano.

 

81. A RIQUEZA DA DOAÇÃO

 

 

 Palavras rudes não são interessantes,

 palavras escusas não são verdadeiras,

 o homem de bem até não fala bastante

 pois quem fala bastante diz asneiras;

 

 homens sábios não são muito eruditos,

 homens eruditos não são inteligentes

 e quem trilha o caminho mais bendito

 não acumula tesouros incoerentemente;

 

 riqueza para o sábio é só a caridade,

 quanto mais doa cultivando a bondade,

 tanto mais rico se torna em evolução;

 

 assim como o Tao gera a ação na vida,

 o sábio age com mesma ação investida

 para doar seu saber para a população.

 

CONSIDERAÇÕES DE CONFÚCIO SOBRE LAO-TSÉ

 

 

 Vi um homem cujos nobres pensamentos

 se elevavam como jamais se presumira,

 eu já gosto de lançar o entendimento

 como um dardo que jamais erra a mira;

 

 eu vi um homem de idéias misteriosas,

 inacessíveis como um abismo profundo,

 e eu prefiro idéias menos extremosas

 para deixá-las no dia a dia do mundo;

 

 pássaros vão voar e peixes vão nadar,

 enquanto os quadrúpedes irão galopar,

 quanto ao dragão, ignoro o que faria;

  

 eu vi Lao-Tsé como quem vê um dragão,

 faltou-me ar e o queixo caiu ao chão,

 e o meu espírito não obteve calmaria.